Título: 3096 diasNº de páginas: 223
Autora: Natascha Kampusch
Editora: Verus
Essa história é real.
“Agora me sinto forte
o bastante para contar a história do meu sequestro”
“Meu cativeiro é algo
com que vou ter de lidar durante toda a minha vida, mas, aos poucos, acredito
que não serei mais dominada por ele. Ele é parte de mim, mas não é tudo. […] Ao
escrever este relato, tentei encerrar o capítulo mais longo e sombrio de minha
vida. Sinto-me aliviada, porque pude encontrar palavras para o que considero indescritível
e contraditório.”
Natascha Kampusch
"Natascha Kampusch
sofreu o destino mais terrível que poderia ocorrer a uma criança: em 2 de março
de 1998, aos 10 anos, foi sequestrada a caminho da escola. O sequestrador – o
engenheiro de telecomunicações Wolfgang Priklopil – a manteve prisioneira em um
cativeiro no porão durante 3096 dias.
Nesse período, ela foi
submetida a todo tipo de abuso físico e psicológico e precisou encontrar forças
dentro de si para não se entregar ao desespero.
Agora, pela primeira
vez, Natascha Kampusch fala abertamente sobre o sequestro, o período no
cativeiro, seu relacionamento com o sequestrador e, sobretudo, como conseguiu
escapar do inferno, permitindo ao leitor compreender os processos de
transformação psicológica pelos quais passa uma pessoa mantida em cativeiro,
sofrendo todo o tipo de agressão física e mental imaginável."
Esse é um dos pouco livros não-fictícios que eu já li. Não
sei como explicar. Em alguns momentos eu precisei parar de ler, respirar fundo,
pensar no que tinha acabado de descobrir.
Me apavorei com os horrores de Priklopil, mas ela deixou bem claro que
ele tinha uma doença mental. Isso também fica claro pelo que ele fazia e dizia.
Mas, em algum momento, eu parei de me surpreender com o que ele fazia. Continuei
horrorizada, é claro, mas não estava mais surpresa. Me admiro por ela ainda
estar viva depois de tudo o que passou. Pensei, enquanto que lia, que
apareceriam as seguintes palavras: “essa foi a última surra de Natascha, pois
ela não conseguiu sobreviver a ela e eu sou o sequestrador, contando a história
dela para o mundo”. Mas, graças a Deus, isso não aconteceu. Ela sobreviveu pra
contar pro mundo os horrores pelos quais passou. Me envolvi tanto na história
que me via fazendo planos também, pra quando ela saísse. Quando eu tinha de
interromper a leitura para dormir, por exemplo, sempre imaginava como seria
quando ela descrevesse sua fuga. Imaginei algo ousado e então a veria ser
recebia como heroína aqui fora. No nosso mundo. Fiquei decepcionada. Não com
ela, obviamente. Estou até surpresa que tenha conseguido escapar, mas não
revelarei como ela o fez. Isso cada um descobre ao ler o livro. Me admiro ao
imaginar que ela tenha conseguido arrumar forças e passar pelos muros
psicológicos que ela criou para si mesma. Uma pessoa na situação dela, tão
dependente de uma única pessoa, tem que ter muita vontade, auto controle ou
então tem que ter um impulso muito grande pra conseguir fugir. Eu pensei que
ela não conseguiria. Principalmente quando eu vi o quanto ela precisava do
sequestrador. A entendo, obviamente não compreendo, por não ter passado pelo
que ela passou, mas eu entendo. Ela fugiu. Muitas pessoas jamais teriam
conseguido fazê-lo. Mas o que realmente me surpreendeu foi o final. Depois de
fugir, ela não foi considerada uma heroína ou alguém a ser admirada.
Por não querer continuar com o papel de vítima, foi julgada.
Por querer dar a volta por cima e ser quem seria se nada tivesse acontecido,
disseram que ela estava tentando ganhar dinheiro às custas de seu sequestro.
Isso foi o que mais me surpreendeu. A triste realidade em que vivemos. A
sociedade adora uma vítima, porque se sente superior a ela. Isso me subiu o
sangue. A sociedade, no fundo, adora um Wolfgang Priklopil pra poderem chamar
de mau. Assim, quando amparam as vítimas de pessoas como ele, a sociedade se
sente superior e boa. Mas se a vítima demonstra força de vontade e determinação
para viver sozinha, a sociedade não gosta mais tanto assim dela.
Para sobreviver ao cativeiro, Natascha teve que se adaptar.
Por ser uma criança foi mais simples. Ela se acostumou à rotina dele. Ela
começou a chamar o cativeiro de lar. Se não o tivesse feito, se tivesse se
rebelado contra tudo e todos, se tivesse se recusado a procurar traços de
humanidade no sequestrador e tivesse colocado na cabeça que estava convivendo
com um monstro, ela teria enlouquecido. Mas, obviamente, não aceitaram o fato
de que alguém que sequestrou uma criança de dez anos e a submeteu a uma
anorexia forçada, espancamentos e confinamento pudesse ter um pouco de
humanidade em si. Por isso disseram que ela tinha uma síndrome. A Síndrome de
Estocolmo. Acho que isso a magoou mais do que qualquer outra coisa. Com o
passar do tempo Natascha passou a entender seu sequestrador, mas acho que ela
nunca vai superar o fato de acharem que ela, por ter usado tudo o que podia
para não enlouquecer e continuar viva, inclusive se acostumar com a vida que
levava e perdoar o sequestrador, sofre de uma Síndrome. Uma doença.
É uma das histórias mais emocionantes que já li. Não é a
mais bem escrita e nem a mais comprida. Ou mesmo a mais detalhada, mas é o
relato real de uma menina que fez o possível para sobreviver. E é sincero como
nenhuma outra leitura que eu já fiz. Por isso recomendo, pois é uma leitura
para a vida. Depois disso, você começa a ver as coisas de forma muito
diferente.
“Meu cativeiro não era quadrado – tinha cerca de dois
metros e setenta de comprimento, um metro e oitenta de largura e quase dois
metros e quarenta de altura. Onze e meio metros cúbicos de ar malcheiroso. Não
chegava a cinco metros quadrado, e era nesse espaço que eu andava como um tigre
enjaulado, sempre de uma parede a outra. Seis passos pequenos para a frente e
seis passos para trás correspondiam ao comprimento. A largura podia ser
percorrida em quatro passos para frente e quatro para trás. Com vinte passos,
eu fava a volta no cativeiro.”
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