Ler é como saborear o seu doce preferido. Não importa o lugar, a circunstância ou momento, é sempre bem vindo. Acredito que todos nós nos alimentamos das letras que povoam nossos sonhos como grandiosos castelos de cristais dourados existentes nos contos de fadas. Não importa se seu doce se chama Harry Potter ou Crepúsculo ou se seu castelo é Hogwarts ou Forks, o importante é que você tem um castelo dourado, com um trono de espadas e um doce que o leva ao paraíso em segundos, retirando-o dessa realidade entediante. Aqui, nós duas, Amanda e Camila, queremos compartilhar nossos doces preferidos com vocês.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

3096 dias

Título: 3096 dias
Nº de páginas: 223
Autora: Natascha Kampusch
Editora: Verus


Essa história é real.

“Agora me sinto forte o bastante para contar a história do meu sequestro”
“Meu cativeiro é algo com que vou ter de lidar durante toda a minha vida, mas, aos poucos, acredito que não serei mais dominada por ele. Ele é parte de mim, mas não é tudo. […] Ao escrever este relato, tentei encerrar o capítulo mais longo e sombrio de minha vida. Sinto-me aliviada, porque pude encontrar palavras para o que considero indescritível e contraditório.”
Natascha Kampusch

"Natascha Kampusch sofreu o destino mais terrível que poderia ocorrer a uma criança: em 2 de março de 1998, aos 10 anos, foi sequestrada a caminho da escola. O sequestrador – o engenheiro de telecomunicações Wolfgang Priklopil – a manteve prisioneira em um cativeiro no porão durante 3096 dias.
Nesse período, ela foi submetida a todo tipo de abuso físico e psicológico e precisou encontrar forças dentro de si para não se entregar ao desespero.
Agora, pela primeira vez, Natascha Kampusch fala abertamente sobre o sequestro, o período no cativeiro, seu relacionamento com o sequestrador e, sobretudo, como conseguiu escapar do inferno, permitindo ao leitor compreender os processos de transformação psicológica pelos quais passa uma pessoa mantida em cativeiro, sofrendo todo o tipo de agressão física e mental imaginável."

Coisa 2:
Esse é um dos pouco livros não-fictícios que eu já li. Não sei como explicar. Em alguns momentos eu precisei parar de ler, respirar fundo, pensar no que tinha acabado de descobrir.  Me apavorei com os horrores de Priklopil, mas ela deixou bem claro que ele tinha uma doença mental. Isso também fica claro pelo que ele fazia e dizia. Mas, em algum momento, eu parei de me surpreender com o que ele fazia. Continuei horrorizada, é claro, mas não estava mais surpresa. Me admiro por ela ainda estar viva depois de tudo o que passou. Pensei, enquanto que lia, que apareceriam as seguintes palavras: “essa foi a última surra de Natascha, pois ela não conseguiu sobreviver a ela e eu sou o sequestrador, contando a história dela para o mundo”. Mas, graças a Deus, isso não aconteceu. Ela sobreviveu pra contar pro mundo os horrores pelos quais passou. Me envolvi tanto na história que me via fazendo planos também, pra quando ela saísse. Quando eu tinha de interromper a leitura para dormir, por exemplo, sempre imaginava como seria quando ela descrevesse sua fuga. Imaginei algo ousado e então a veria ser recebia como heroína aqui fora. No nosso mundo. Fiquei decepcionada. Não com ela, obviamente. Estou até surpresa que tenha conseguido escapar, mas não revelarei como ela o fez. Isso cada um descobre ao ler o livro. Me admiro ao imaginar que ela tenha conseguido arrumar forças e passar pelos muros psicológicos que ela criou para si mesma. Uma pessoa na situação dela, tão dependente de uma única pessoa, tem que ter muita vontade, auto controle ou então tem que ter um impulso muito grande pra conseguir fugir. Eu pensei que ela não conseguiria. Principalmente quando eu vi o quanto ela precisava do sequestrador. A entendo, obviamente não compreendo, por não ter passado pelo que ela passou, mas eu entendo. Ela fugiu. Muitas pessoas jamais teriam conseguido fazê-lo. Mas o que realmente me surpreendeu foi o final. Depois de fugir, ela não foi considerada uma heroína ou alguém a ser admirada.
Por não querer continuar com o papel de vítima, foi julgada. Por querer dar a volta por cima e ser quem seria se nada tivesse acontecido, disseram que ela estava tentando ganhar dinheiro às custas de seu sequestro. Isso foi o que mais me surpreendeu. A triste realidade em que vivemos. A sociedade adora uma vítima, porque se sente superior a ela. Isso me subiu o sangue. A sociedade, no fundo, adora um Wolfgang Priklopil pra poderem chamar de mau. Assim, quando amparam as vítimas de pessoas como ele, a sociedade se sente superior e boa. Mas se a vítima demonstra força de vontade e determinação para viver sozinha, a sociedade não gosta mais tanto assim dela.
Para sobreviver ao cativeiro, Natascha teve que se adaptar. Por ser uma criança foi mais simples. Ela se acostumou à rotina dele. Ela começou a chamar o cativeiro de lar. Se não o tivesse feito, se tivesse se rebelado contra tudo e todos, se tivesse se recusado a procurar traços de humanidade no sequestrador e tivesse colocado na cabeça que estava convivendo com um monstro, ela teria enlouquecido. Mas, obviamente, não aceitaram o fato de que alguém que sequestrou uma criança de dez anos e a submeteu a uma anorexia forçada, espancamentos e confinamento pudesse ter um pouco de humanidade em si. Por isso disseram que ela tinha uma síndrome. A Síndrome de Estocolmo. Acho que isso a magoou mais do que qualquer outra coisa. Com o passar do tempo Natascha passou a entender seu sequestrador, mas acho que ela nunca vai superar o fato de acharem que ela, por ter usado tudo o que podia para não enlouquecer e continuar viva, inclusive se acostumar com a vida que levava e perdoar o sequestrador, sofre de uma Síndrome. Uma doença.
É uma das histórias mais emocionantes que já li. Não é a mais bem escrita e nem a mais comprida. Ou mesmo a mais detalhada, mas é o relato real de uma menina que fez o possível para sobreviver. E é sincero como nenhuma outra leitura que eu já fiz. Por isso recomendo, pois é uma leitura para a vida. Depois disso, você começa a ver as coisas de forma muito diferente.


“Meu cativeiro não era quadrado – tinha cerca de dois metros e setenta de comprimento, um metro e oitenta de largura e quase dois metros e quarenta de altura. Onze e meio metros cúbicos de ar malcheiroso. Não chegava a cinco metros quadrado, e era nesse espaço que eu andava como um tigre enjaulado, sempre de uma parede a outra. Seis passos pequenos para a frente e seis passos para trás correspondiam ao comprimento. A largura podia ser percorrida em quatro passos para frente e quatro para trás. Com vinte passos, eu fava a volta no cativeiro.”

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